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Desde: 09/05/2009      Publicadas: 485      Atualização: 07/01/2011

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 Religião & Sustentabilidade

  01/12/2010
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Secretário executivo do Ministério da Cultura, Juca Ferreira, no Seminário Candomblé, Saúde e Axé

Foto ilustrativa

Secretário executivo do Ministério da Cultura, Juca Ferreira, no Seminário Candomblé, Saúde e AxéSecretário executivo do Ministério da Cultura, Juca Ferreira, no Seminário Candomblé, Saúde e Axé

SALVADOR, 12 DE DEZEMBRO DE 2003
Boa noite aos pais e mães de santo, ao povo de axé e a todos os presentes. Gostaria de agradecer o convite feito pelos organizadores do evento, em particular a Marcelo Cerqueira, que foi muito gentil e generoso ao me propor o tema "candomblé e meio ambiente", já que muitos dos presentes poderiam falar sobre esse assunto com muito mais propriedade, já que vivenciam essa relação no cotidiano.
Eu não sou nem um estudioso nem um especialista deste assunto. Sou apenas um militante ecologista que busca uma aliança entre os ambientalistas e o povo do candomblé em defesa da natureza. E o Ministério da Cultura tem o maior interesse em fortalecer uma cultura que dê passagem para uma visão de mundo que possibilite uma relação com a natureza e com o meio ambiente que garanta a sustentabilidade do nosso país.
O fundamento do candomblé é todo estruturado nesta relação entre os seres humanos e a natureza. As plantas, os animais, os fenômenos naturais em geral, os seres inanimados, como a pedra, por exemplo, são manifestações do sagrado. No candomblé, a cosmovisão, a liturgia e a leitura dos seres humanos na sua singularidade são toda em cima dos fatos e fenômenos naturais. As relações entre os seres humanos e a natureza são indissolúveis e essenciais: "sem folha não há candomblé, não há vida, não há nada".
Já que esta questão está posta desta maneira tão incontornável no universo do candomblé, porque mesmo é importante refletirmos aqui sobre esta relação entre candomblé e ecologia? Talvez seja este o ponto de partida dessa nossa conversa, porque a história da nossa sociedade e de todo o ocidente é a história da dicotomia entre cultura e natureza e, até mesmo, a história da cultura contra a natureza, a favor do domínio da natureza. Herdamos esse ponto de vista da tradição judaico-cristã e que, com o capitalismo, veio a se exacerbar.
O desejo " muitas vezes heróico " de dominar a natureza, impulsionou a energia transformadora do capitalismo e permitiu o desenvolvimento fantástico das forças produtivas e do conhecimento. Mas, hoje, estamos diante de um impasse. Estamos diante da possibilidade de um desequilíbrio ambiental sem retorno em conseqüência da ação humana. Não podemos descartar que esse desequilíbrio venha a inviabilizar a vida no planeta. Os impactos sociais e ambientais do desenvolvimento acabaram por nos colocar neste ponto ameaçador. A elevação da temperatura da terra, a destruição de ecossistemas inteiros, o desaparecimento diário de milhares de espécies, a redução vertiginosa dos estoques de água potável são sintomas dessa crise ambiental global, um verdadeiro desafio para toda a humanidade.
Precisamos, urgentemente, fazer dessa crise um ponto de mutação, de mudança de rumo. Esse é o sentido, a razão, do surgimento do movimento ambientalista. O movimento ambientalista, nada mais é que luta pela vida, pelas condições que garantem sua existência no planeta terra e pela continuidade da existência da vida.
É nesse sentido que falo de uma aliança política entre o candomblé e o movimento ambientalista. O candomblé é mais que um aliado. É um precursor do ambientalismo, é uma reserva. O ponto de vista do candomblé é mais profundo. Não se trata de defender. O Candomblé reverencia, louva, reconhece o sagrado, a manifestação do divino na natureza. Neste sentido, o candomblé é uma reserva cultural para a mudança que precisamos fazer para termos uma sociedade sustentável, ou seja, fraternal, justa, tolerante com as diferenças humanas, porque as compreende e porque respeita as outras formas de vida e a natureza em geral. Os candomblés são, ao mesmo tempo, espaço de tradição, base de resistência e lugar de renovação. A influência difusa do candomblé no conjunto da sociedade brasileira tem contribuído para muitas das qualidades da sociedade brasileira. A questão ecológica demanda uma ampliação dessa influência.
Quem vive o candomblé profundamente sente e se relaciona com a natureza de um modo especial. É capaz de olhar para as folhas imóveis de uma paisagem com devoção, sem sentir a ansiedade deprimida que está na base do desejo de dominação que move o "progresso" do ocidente há pelo menos quinhentos anos. Ao contrário, a quietude parece nos propor uma convivência solidária entre distintos, um religamento com o todo, uma espiritualidade que propicia o culto e o mergulho no mistério da vida. Este sentimento de pertencimento possibilita a transcendência, permite que a razão se relacione com outras estruturas cognitivas e cria as condições para uma visão de mundo que tem o ser humano como ponto de partida, mas jamais como centro do universo.
Os ecologistas podem compartilhar dessa sabedoria praticada nos terreiros da Bahia. Com nossos discursos políticos em defesa da natureza estamos revisitando temas e questões que o povo de santo faz o repertório religioso e devocional de uma maneira bem mais profunda. Não há culto a Orixá que possa ocorrer sem o corpo a corpo com a terra, com a chuva, com o mato, com os rios com o céu ou com o trovão. Há cerca de 10 anos, quando fui Secretário de Meio Ambiente de Salvador, tive a oportunidade de criar o Projeto Jardins das Folhas Sagradas, projeto este que tinha como premissa a compreensão do Povo de Santo como precursores do ambientalismo. Descobri que não tinha um logradouro público sequer com nome de mãe ou de pai de santo, apesar da importância cultural para a Cidade da Bahia desses sacerdotes. Inauguramos a praça mãe Ruinhó, Praça Pulchéria,, no Gantoá e a Praça Manoel Bernadino da Paixão. Replantamos árvores sagradas que haviam sido sacrificadas por um crescimento urbano predatório. Recentemente, tive a honra de participar do tombamento do terreiro Bate Folha. Este terreiro possui a maior área urbana remanescente da Mata Atlântica " mais ou menos 15,5 hectares.
Na Bahia, a ação ambientalista encontra uma matriz original na visão de mundo do candomblé, que identifica nos elementos da natureza a presença da própria divindade. Por conta dessa compreensão, o fato é que os terreiros se tornaram um foco notável de resistência ecológica. É, por toda essa importância, pela possibilidade de uma cultura tradicional servir de base para construção de uma sensibilidade e uma consciência tão importante para o mundo no século XXI e principalmente, pela consciência que os pais e mães de santo tem de sua missão, que estamos aqui apoiando esta campanha de combate a AIDS, doença que continua sendo uma das maiores ameaças do nosso tempo e pode ter nos terreiros, como já se percebe hoje, uma forma original e eficaz de combate.
Boa noite e obrigado.


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